Carlos Moreira
Hoje tomei
conhecimento de algo que já era aguardado por muitos: a notícia de que o
cristianismo faleceu. Ao contrário do que talvez se pense, não foi uma
morte repentina, uma vez que sua falência múltipla já se arrastava por,
pelo menos, meio século. Morreu de infecção generalizada!
Na verdade, a
saúde do cristianismo nunca foi boa. Isso podia ser percebido já em seus
primeiros anos. Sua origem está associada ao movimento chamado “os do
Caminho”, que remonta aos primeiros discípulos de Jesus, o Cristo. No
segundo século, este grupo havia crescido assustadoramente, tinha
seguidores em todas as camadas da sociedade e na maior parte do mundo
habitado.
No quarto
século, todavia, o “movimento do Caminho” sofreu um duro golpe: foi
transformado pelo imperador romano Constantino na religião oficial do
império. Essa institucionalização, que se deu em 325 d.C., numa reunião
denominada de Concílio de Nicéia, estabeleceu a ruptura definitiva entre
os antigos seguidores de Jesus e os que passaram a organizar e
normatizar essa nova fé.
A idade média
foi muito dura com o cristianismo. Já como religião dominante do
ocidente, ele viu-se em voltas com inúmeros problemas. Teve de lidar,
dentre outros, com a infiltração e o crescimento de falsas doutrinas,
além da grave corrupção do clero. Apesar de ter se estabelecido como um
poder terreno, tanto político quanto religioso, começava a apresentar os
primeiros sinais de doença grave.
O auge dessa
crise, contanto, se deu na idade moderna, no século XVI. Foi nesse
período que o cristianismo enfrentou mais um sério problema: o seu mais
contundente cisma. Denominado de Reforma Protestante, foi liderado por
um monge alemão de nome Martinho Lutero, e refletiu o desejo de mudança
que já se podia sentir pelo menos 200 anos antes.
As intenções da
Reforma eram boas, mas seus desdobramentos mostraram que ela não se
constituiu no remédio definitivo para a “cura do mal”. Polarizado, tendo
de um lado a igreja de Roma e do outro as centenas de denominações
Protestantes, o cristianismo começou a agonizar. Na idade contemporânea,
estava infectado por politicagem, corrupção, desvios, fragmentações, o
que acelerou o agravamento de sua situação.
O século XXI
iniciou com o cristianismo já em estado de coma. Os últimos anos do
século XX foram decisivos para sua decadência final. Os problemas
generalizaram-se, em todas as esferas, e atingiram duramente seus
líderes. Escândalos sem precedentes marcaram sua derrocada. Entre os
mais graves, casos de pedofilia, de enriquecimento ilícito, prostituição
no clero, lavagem de dinheiro e os sucessivos e agora insustentáveis desvios doutrinários. A morte era só uma questão de tempo. Enfim, chegou.
Quero aqui me
solidarizar com mais de dois bilhões de fiéis que ficaram órfãos de sua
religião. Sinto a dor dos que foram manipulados, espoliados, dos que
foram iludidos com falsas esperanças. Sim, choro com você que acreditou
num deus feito pelos homens, numa fé calcada em magia, numa proposta de
mudanças epidérmicas, que alteram a aparência, mas que jamais chegam aos
escaninhos da alma e as câmaras do coração.
Querido amigo,
sou reverente com sua dor. Sinto pelo engano do qual você se tornou
vítima. Apesar de sua mente ter passado por uma “lavagem”, sua
consciência nunca foi ressignifcada. Suas práticas não lhe levaram a
nada porque eram apenas ritos ocos, regras tolas, nunca se constituíram
em mudança profunda no caráter que produzisse frutos de justiça.
Estou certo que
suas intenções eram boas. Mas, convenhamos, é impossível que doutrinas
judaizantes, simbiotizadas com religiões de mistérios antigas e
filosofias gregas, sobretudo a lógica aristotélica, pudesse fazer alguém
transcender e chegar ao Deus Eterno. Isso, creia-me, só é possível por
meio do Sangue de Jesus de Nazaré, uma vez quebrantado o coração por
causa da Graça e acesa a consciência para o arrependimento por meio da
fé.
Notícias que
chegam a todo instante dão conta de que o sepultamento do cristianismo
ainda não tem data certa. Neste momento, há intensa discussão sobre o
local, que poderá ser a Basílica de São Pedro, a catedral de
Westiminster ou a catedral de Canterbury, e também sobre quem deverá ser
o oficiante da cerimônia.
Em todo o
mundo, grupos religiosos se preparam para receber o “espólio” dos
cristãos, não só os bens da igreja, que são numerosos, mas, sobretudo,
as pessoas. Acredita-se que a migração será fragmentada, com grupos
aderindo ao islamismo, outros retornando ao judaísmo, e ainda os que
buscarão religiões espiritualistas orientais.
A boa notícia,
em meio a toda essa tragédia, é que ainda sobrevive um pequeno
remanescente dos que acreditam em Jesus de Nazaré. Em todo o mundo,
discípulos do profeta da Galiléia continuam a reunir-se em casas,
escolas, pequenos auditórios e igrejas para celebrar ao Deus Verdadeiro.
Eles se dizem oriundos do “movimento do Caminho”, o qual está associado
aos primeiros apóstolos e pais da igreja dos dois primeiros séculos.
Esse grupo
permanece, até hoje, fiel a Escritura Sagrada, amando a Deus sobre todas
as coisas e sendo solidário com o próximo. Curiosamente, eles sempre se
fizeram presentes na história, ora coexistindo dentro do próprio
cristianismo, ora correndo paralelo a ele. Surpreendentemente, a fé
destes discípulos de Jesus sobreviveu há séculos de crendices e hoje
parece ter se tornado madura e consistente.
Trata-se de
gente carregada de uma singeleza no olhar, pois eles são mansos,
humildes, cheios de compaixão e misericórdia. Não será difícil
reconhecê-los. Estão sempre dispostos a ajudar, são coerentes com aquilo
que pregam e vivem, falam de esperança, amam com sinceridade, são
desapegados.
Quais errantes,
eles estão em todo lugar, e sempre anunciam o que chamam de Evangelho.
Essa mensagem milenar, que parecia totalmente esquecida, apregoa que
Deus se reconciliou com os homens por intermédio de Jesus, não mais
imputando aos mesmos os seus pecados, mas assegurando a todo o que crê a
vida eterna.
Quem desejar
conferir que fique atento! Pode existir um grupo destes bem próximo a
você. Vale a pena visitá-los e conhecer a extraordinária mensagem que
eles carregam encarnada em si mesmos.
Carlos Moreira é editor do Genizah e também escreve para a Nova Cristandade.

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