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11 março 2013

MUDAR SEM MUDAR, POR RICARDO NOBLAT

Começa amanhã a mais misteriosa das eleições que atrai de tempos em tempos a atenção do planeta. Dela emergirá um rei. É pouco chamar o papa de rei.

Antigamente, o poder dos reis era absoluto. Hoje, eles reinam, mas não governam.
O papa reina e governa. Com uma diferença que ainda o torna mais poderoso: ele é infalível. Sempre está certo quando delibera e define algo em matéria de fé ou costumes
.
Seu reino não se limita aos 0,44 quilômetros quadrados da Cidade do Vaticano, onde moram cerca de 800 pessoas. Estende-se a qualquer lugar onde viva um único dos 1,142 bilhão de católicos romanos dispostos a escutá-lo. E a seguir sua orientação.
O reino do papa é deste mundo, sim. Mas também não é. Está conectado a outro reino de onde sua força verdadeiramente emana. Questão de fé, meu caro. Elementar.
Se a eleição obedecesse à lógica dos números, o sucessor de Bento XVI seria um europeu. Porque o contingente de cardeais europeus é o maior. E seria italiano - pela mesma razão.
Bento XVI, o papa emérito, é alemão. João Paulo II era polonês. Para reforçar a ideia de que o reino do papa está ligado ao reino de Deus, a Igreja atribui a última palavra ao Espírito Santo.
Não é bem assim. "O Espírito Santo não escolhe o Papa. Não toma o controle do processo. Age como se fosse um bom educador, nos deixa muito espaço, sem jamais nos abandonar inteiramente", ensinou Joseph Ratzinger quando ainda não era Bento XVI.
"O Espírito Santo não vai ditar o nome do candidato em que se deve votar. Há muitos exemplos de papas que ele, obviamente, não teria escolhido".
 A Deus o que é de Deus. Aos 115 cardeais aptos a votarem, a tarefa que lhes cabe. E que a essa altura foi cumprida em parte.
Não se sabe - nem mesmo os próprios cardeais - qual deles acenará para a multidão reunida na praça de São Pedro depois que o aviso tiver sido dado: "Habemus Papam". Sabe-se, porém, que os cardeais tiveram tempo de sobra para traçar o perfil do futuro papa.
Bento XVI reinou por menos de oito anos. Dono de vasta cultura religiosa, era o mais importante teólogo da Igreja quando sucedeu a João Paulo II.
Foi um governante fraco, o que pouco teve a ver com seu estado de saúde. Não promoveu reformas. Acabou engolido pela Cúria, o aparelho administrativo da Igreja, minado por escândalos. Abdicou por lhe faltarem gosto e energia para exercer sua função.
Há mais de um ano, atentos à debilidade de Bento XVI, os cardeais discutem o que fazer com a Igreja diante dos desafios que ela enfrenta e das sucessivas crises que a atropelam.
Nada mais natural que tenham se perguntado: que tipo de papa necessitamos?
A discussão ganhou velocidade com a renuncia de Bento XVI e a chegada em massa dos cardeais a Roma. Tudo indica que este será um conclave sem candidatos favoritos.
Eugenio Pacelli entrou como favorito no conclave de 1939 e saiu como Pio XII. Paulo VI, também em 1963. Joseph Ratzinger, idem em 2005.
Os demais papas do século XX para cá viram suas eleições se desenharem quando estavam trancados e incomunicáveis na Capela Sistina. Ali ganharam nomes dois ou mais perfis de papa esboçados com antecedência. Um dos perfis finalmente se impôs. E ganhou um rosto.
Quase 70 dos 115 cardeais-eleitores devem a Bento XVI sua condição de príncipes da Igreja. Os demais, a João Paulo II.
O conclave será uma reunião de conservadores para entronizar um conservador simpático e talvez mais jovem. Pois os progressistas foram extintos há muito tempo. E os moderados, quase isso.


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