O
jornalista Elio Gaspari afirma em seu artigo de hoje (ele escreve às
quartas e aos domingos) na “Folha de São Paulo” que o Recife, primeira
Sé cardinalícia do país, “está na segunda divisão desde os anos 60”,
quando a ditadura hostilizava Dom Hélder Câmara e não queria vê-lo cardeal.
O artigo se chama “Vem aí um conclave inesquecível” e pode ser conferido logo abaixo.
I- Tudo o que se pode esperar da escolha do sucessor de Bento XVI é o
fim de um Vaticano eurocêntrico. Desde que Karol Wojtyla tornou-se João
Paulo II, a Europa é o centro das atenções da Cúria. O Papa polonês
cumpriu uma fenomenal missão histórica ajudando a desmontar décadas de
tolerância com as ditaduras comunistas.
II- Seu sucessor teve um pontificado medíocre enrolado pela
tolerância com escândalos sexuais e financeiros de sacerdotes. Um deles
passou de raspão pelo Brasil, num trambique do namorado da atriz Anne
Hathaway, sócio do sobrinho do atual decano do Colégio de Cardeais, o
poderoso ex-secretário de Estado Angelo Sodano. A moça micou em US$ 135
mil e o rapaz foi preso nos Estados Unidos.
III- As dificuldades do Vaticano com suas finanças são antigas. Foi
Pio IX quem avisou: “Posso ser infalível, mas estou falido.” Já os
desempenhos sexuais de alguns sacerdotes, mesmo sendo coisa antiga,
tornaram-se uma encrenca recente, com a qual João Paulo II e Bento XVI
nunca conseguiram lidar direito, envenenando a missão pastoral de
dioceses europeias e americanas.
IV- O eurocentrismo da Cúria Romana refletiu-se no Brasil. Durante o
pontificado de Paulo VI, Pindorama passou de dois para oito cardeais.
Hoje tem cinco. Bento XVI deixou sem o barrete cardinalício as
arquidioceses do Rio e de Brasília. Porto Alegre teve cardeal e está
sem. Recife, a primeira sé cardinalícia brasileira, está na segunda
divisão desde os anos 60, quando a ditadura hostilizava D. Helder Câmara
e não queria vê-lo cardeal.
V- Se foi econômico com os barretes brasileiros, Bento XVI foi
generoso aspergindo-os pela Europa. Elevou a diocese de Valencia (800
mil habitantes), na Espanha, mas não confirmou o barrete de Porto Alegre
(1,5 milhão de habitantes).
VI- Quem especular o nome do sucessor de Ratzinger pode jogar cara ou
coroa. Nos seis últimos conclaves elegeram-se três favoritos
(Ratzinger, Paulo VI e Pio XII) e três azarões (João Paulo II, João
Paulo I e João XXIII, um gorducho que mal cabia nas vestes preparadas
pelos alfaiates que trabalharam durante o conclave.)
VII- Pode-se esperar que, depois de um Papa saído da academia de
teólogos e da burocracia de Roma, venha um pastor, como os dois João
Paulo e João XXIII. Um administrador de diocese do Terceiro Mundo uniria
o útil ao agradável.
VIII- É assim que entra nas listas, com um sopro romano, o cardeal
de São Paulo, D. Odilo Scherer, pastor de uma das maiores arquidioceses
do mundo. Aos 63 anos, teria um longo pontificado. Ele tem uma
característica anfíbia. É brasileiro, mas, como quatro outros cardeais
brasileiros (Claudio Hummes, Paulo Evaristo Arns, Aloisio Lorscheider e
Vicente Scherer, seu parente distante), descende da imigração alemã. A
mola mestra da eleição dos dois últimos papas foi a capacidade de
articulação da hierarquia alemã.
IX- D. Odilo lidera a facção conservadora do clero brasileiro,
derrotada na última eleição da CNBB e nas eleições gerais em que se
meteu. Para consumo mundial, preenche o requisito de um Papa do Terceiro
Mundo, condição só superável pela escolha de um africano como Francis
Arinze, de Lagos. Mais que africano, Arinze tem 80 anos e passou 25 em
Roma. Seria um Papa de transição.
X- Com uma eleição marcada para o fim de março e um Papa vivo, vem aí um conclave inesquecível.
do Blog de Inaldo Sampaio
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