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14 novembro 2014

O ADEUS A MANOEL DE BARROS, O POETA DAS MIUDEZAS

Manoel de Barros morre aos 98 anos. A vida, a inspiração, o estilo e a obra do poeta

da Época MARCELO BORTOLOTI

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RASCUNHOS O poeta Manoel de Barros, em foto de 2006, e rascunhos do seu caderno de poesias. Há muito material inédito (Foto: Roberto Higa)
 
 
 
 
 
>> Manoel de Barros morreu nesta quinta-feira (13), em Campo Grande. Leia o perfil do poeta publicado em ÉPOCA  dia 1º de novembro de 2014.
O mais importante poeta brasileiro vivo deixou de escrever. Aos 98 anos, Manoel de Barros passa os dias deitado numa cama em sua casa da Rua Piratininga, num bairro nobre da cidade de Campo Grande. Alimenta-se por um tubo instalado em seu estômago, por onde os enfermeiros ministram todo tipo de medicamento. Não anda nem consegue falar. Ouve pouco e enxerga mal. À tarde, é colocado numa cadeira de rodas para que saia da cama. O resto do dia fica praticamente imóvel, olhando para o teto.
Seu irmão mais novo, Abílio de Barros, volta aborrecido sempre que vai visitá-lo. “Ele está enjaulado em si mesmo. Já viveu demais e quer ir embora. Sua vida é quase vegetativa. É um absurdo que a medicina o continue segurando desta forma”, diz. A mulher, Stella, cinco anos mais jovem, casada com Manoel há mais de meio século, não permite a visita de amigos. Quem cuida dos aspectos práticos da casa é sua única filha viva, a artista plástica Martha de Barros. “Ele está inválido, não caminha mais, não usa as mãos. Nossa vida está muito dura”, diz.
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Esta morte em vida parece mais trágica para um homem tão bem-humorado e de personalidade dócil como Manoel de Barros. Acontece num momento em que sua obra poética faz barulho no mercado editorial brasileiro. Em outubro, venceu o contrato que ele mantinha havia quase 15 anos com a editora Leya. A filha Martha, que cuida dos direitos autorais, avisou que não renovaria e passaria a obra do pai a outra editora. Contratou uma das principais agentes literárias do país, Lúcia Riff, que cuida da obra de poetas como Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto e Mario Quintana, para negociar um novo contrato. O resultado foi anunciado na última sexta-feira. A partir do ano que vem, Manoel de Barros será editado pela Alfaguara, selo da editora Objetiva.
 
VOZ NATURAL Manoel de Barros e a mulher, Stella, em 2008 (ao lado). À esquerda, a fazenda Santa Cruz, no Pantanal, onde Manoel viveu dez anos sem escrever. O silêncio decantou  seu estilo (Foto: Lucas de Barros)
VOZ NATURAL Manoel de Barros e a mulher, Stella, em 2008 (ao lado). À esquerda, a fazenda Santa Cruz, no Pantanal, onde Manoel viveu dez anos sem escrever. O silêncio decantou  seu estilo (Foto: Lucas de Barros)
Foi uma disputa acirrada, porque Manoel é um dos grandes vendedores de poesia no Brasil. Quando entrou na editora Record, no final dos anos 1990, foi o primeiro poeta a figurar na lista dos mais vendidos depois da morte de Drummond. Na editora Planeta, uma brochura com a série Memórias inventadas vendeu 450 mil exemplares, distribuídos nas escolas de São Paulo. É um número excepcional tratando-se de poesia.
Esse reconhecimento veio tarde. Aos 98 anos, Manoel de Barros sentiu o gosto do sucesso por menos de duas décadas. Na maior parte da vida, pagou suas próprias publicações. A glória tardia o alcançou já com problemas de saúde e prestes a viver momentos dramáticos, com a perda de seus dois filhos homens. Em 2007, o filho João, com 50 anos, morreu num acidente aéreo. Ele pilotava um monomotor com destino à fazenda de Manoel, a 350 quilômetros de Campo Grande, praticamente inacessível por terra nos períodos de cheia. Quando pousava, um bezerro entrou na pista e bateu no trem de pouso. João foi projetado para fora do avião e não sobreviveu aos ferimentos. Era ele quem administrava todo o patrimônio rural do pai. Manoel não conseguiu ir ao enterro, depois disso praticamente não saiu mais de casa. Em julho do ano passado, o filho mais velho, Pedro, morreu depois de ter sofrido três derrames. Ele tinha esquizofrenia. Apesar de ser por vezes agressivo, Manoel preferiu mantê-lo em casa em vez de colocá-lo num sanatório. Por causa de problemas de saúde, passou os cinco últimos anos na cama, sob os cuidados de Manoel e Stella. Depois da morte de Pedro, Manoel começou a definhar. Há cinco meses, disse ao irmão Abílio, sussurrando, que daquela maneira não lhe interessava mais viver.  “Ele sempre falou que a pior coisa do mundo é a velhice”, diz o jornalista Bosco Martins, amigo há 30 anos. Mais que agarrado à vida, é a vida que se agarra a ele.
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Manoel inaugurou um estilo único na poesia brasileira. “Ele encontrou a equação perfeita entre natureza e linguagem, inovadora para a história da poesia”, diz Alberto Müller, professor da Universidade Federal Fluminense. Manoel se intitulou poeta das coisas imprestáveis, amante dos objetos jogados fora. Preferiu olhar para baixo, tirar lirismo das pequenezas. Por isso, sua obra foi considerada o “apogeu do chão”. Em seus poemas aparecem musgos, sapos, pedras, rãs, árvores e caracóis. “Gosto de alguma coisa na infância que eu tenha mijado nela”, costuma dizer.

Essa linha criativa tem a ver com suas origens. Nasceu em Cuiabá. Aos 2 anos mudou-se com a família para o meio do Pantanal. Passou a infância tomando banho de rio, vivendo em casas com telhado de palha e conversando com passarinhos. “Infância milionária para meu temperamento”, dizia. Quando completou 8 anos, o pai o colocou num colégio interno em Campo Grande. Ali, conheceu a cultura grega, os sermões do Padre Antônio Vieira e o poeta francês Arthur Rimbaud. A junção entre a alta cultura e a natureza primitiva forjou seu estilo de escrita. Manoel conta que um padre do internato, percebendo as duas paixões e a incapacidade do jovem aluno para os aspectos práticos da vida, afirmou: “Não presta para nada, há de ser poeta”.
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O início da produção foi tumultuada. Seu primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, de 1937, não tem ainda o estilo que o consagrou. A tiragem foi de 21 exemplares e não teve a menor repercussão. Nessa época, Manoel vivia na cidade que era o centro da vida cultural e política do país, mas apenas tangenciava o círculo dos grandes escritores. Escreveu uma carta a Clarice Lispector, que nunca respondeu. Pediu emprego a Drummond no Ministério da Educação e jamais foi atendido. Criou coragem para tocar a campainha na casa de Manuel Bandeira. Antes que Bandeira abrisse a porta, desceu correndo escada abaixo. Só travou contato mais efetivo com Guimarães Rosa, com quem compartilha uma sintonia de linguagem e temática interiorana. Ainda assim, conversou com ele de mãos trêmulas.
 
Trecho (Foto: Manoel de Barros )
Esse isolamento das rodas literárias foi uma constante em sua existência. Está relacionado ao estilo de vida que adotou. Em 1949, dois anos depois de se casar com Stella, seu pai morreu de infarto. Ele herdou uma fazenda de 14.000 hectares no Pantanal, a Santa Cruz. Como passava dificuldades financeiras no Rio de Janeiro, decidiu mudar-se para lá. Teve de construir casa, cercar a área, erguer os currais e trazer o gado. Passou dez anos nesse isolamento, sem rádio nem televisão, com o primeiro vizinho a quilômetros de distância. Não escreveu praticamente nada nesse período. Acordava de manhã, montava no cavalo, passava o dia atrás do rebanho. O isolamento o ajudou a fertilizar e decantar sua poesia. Depois dessa experiência, publicou o livro Compêndio para uso dos pássaros, de 1960, em que apresentava uma linguagem única e quase primitiva, voltada para a natureza e para as miudezas do cotidiano. A obra foi premiada pela Academia Brasileira de Letras. Distanciava-se tanto da poesia do Brasil daquela época que teve pouco acolhimento do público. O título curioso fez com que Manoel recebesse ligações de criadores de pássaros, perguntando se não se tratava de um guia prático.
Desde essa época, a rotina dele passou a ser praticamente a mesma, até meados do ano passado. Com a fazenda já estabelecida, mudou-se para Campo Grande e dizia ter comprado seu ócio. Todos os dias, na parte da manhã, subia para o escritório no segundo andar da casa, que batizou de “lugar de ser inútil”. Dedicava-se a sua produção. “Neste recanto, invento artices. Olho para cima, leio e releio páginas de livros, respondo a cartas, faço aviões de papel, vou até a infância e volto”, disse em entrevista. Ali escreveu 20 livros de poesia. No final dos anos 1980, o jornalista Millôr Fernandes começou a falar na grande imprensa daquele poeta inventivo que subvertia a linguagem e tirava o homem da posição central. Nessa época, assinou contrato com a Civilização Brasileira, sua primeira editora, e começou a aparecer nacionalmente. Depois foi para a Record. Lá, o Livro das ignorãças vendeu 60 mil exemplares, número surpreendente para a época. O editor  Pascoal Soto, da Leya, foi buscá-lo numa época em que suas vendas não estavam tão boas. Sugeriu a Manoel aventurar-se pela literatura infantil, campo em que foi bastante premiado. Pascoal se emociona ao falar dele, com quem manteve uma amizade próxima. Eles trocaram quase uma centena de cartas, que Pascoal ainda preserva. A notícia de que a filha Martha não pretendia renovar o contrato do pai o pegou de surpresa. “Isso me corrói por dentro, é uma grande tristeza pessoal”, diz Pascoal.
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Martha não justificou os motivos da mudança. Desde que seu irmão João morreu, os negócios da família ficaram desorganizados. Manoel passou a precisar cada vez mais dos direitos autorais. Hoje, essa receita é uma fonte importante no orçamento da família, comprometido com medicamentos e enfermeiros. O potencial comercial dos direitos é grande. Além da republicação das obras, o acervo de Manoel guarda raridades que renderiam vários projetos editoriais.

Um exemplo são os mais de 100 cadernos de rascunho que Manoel preservou ao longo da vida. Escrevendo sempre com lápis e letra miúda, ele anotava suas ideias em cadernos de papel sem pauta que ele próprio produzia. Essas anotações são versos soltos. Depois de organizados e passados a limpo, se transformavam em poemas. Apenas 30% deles foram publicados. O restante é um material precioso, que pode ser fonte riquíssima de inéditos. Martha diz que prometeu ao pai só dar algum destino aos cadernos depois de sua morte. Infelizmente, esse dia parece se aproximar cada vez mais rápido.

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